BORDANDO UMA EXISTÊNCIA

O meu interesse pelas artes vem desde a infância, quando ainda morava em minha cidade natal, Medina, que fica no Vale Jequitinhonha, Minas Gerais. Lá tive a influência do artesanato mineiro: bordados, crochês, tricôs, costuras sempre fizeram parte da minha vida.

No começo eu me dediquei mais ao desenho, depois, na adolescência, à pintura. A arte sempre foi para mim uma forma de autoexpressão genuína, sobretudo porque paralelo a isso, eu também me dedicava ao teatro. No teatro eu conseguia unir todos os campos de interesse que eu tinha na Arte.

Até meus vinte e poucos anos eu seguia como pintor de quadros, e, ao mesmo tempo, iniciava uma graduação em Artes Cênicas em Ouro Preto em meados de 2009. Depois que eu formei, voltei para Belo Horizonte e comecei a trabalhar num museu. Foi lá, em 2015, que pela primeira vez tive contato com a obra do artista José Leonilson, e me apaixonei. Eu já conhecia o Bispo do Rosário desde a faculdade e ficava encantado com sua vida e obra. No entanto, foi com Leonilson e com a delicadeza e a poesia de sua obra que me senti inspirado a também criar meus bordados.

Nessa época passei a usar o feltro e bordava coisas simples como: palavras, frases e algumas imagens. Depois de um tempo, comecei a estudar na Escola Guignard – UEMG, onde adotei novos tipos de tecidos e investi em trabalhos mais elaborados, produzindo releituras de artistas como Van Gogh, Frida Kahlo, Tarsila do Amaral, Portinari, Basquiat e o próprio Leonilson. Isso me ajudou a ter uma dimensão do que eu era capaz de fazer e, assim, pude avançar tecnicamente mais preparado para minhas memórias, que passaram a ser minha matéria prima.

Recebi bons conselhos na faculdade, o que me deu confiança para fazer trabalhos maiores e mais ousados. Na minha pesquisa, sempre tive a figura humana como um norte. Em muitos dos trabalhos eu coloco o meu corpo como objeto central, como um objeto de investigação. E desse modo, deposito muito dos meus sentimentos, pensamentos sobre a vida e a morte no que eu faço. Eu bordo minha existência. E sendo um homem gay, assim como Leonilson, eu acabo trazendo essa minha sexualidade e esse afeto homoerótico para os trabalhos.

Na série “Saquinhos Cheios” eu apresento uma espécie de “patuás dinamites” onde utilizo o suporte do saquinho para bordar frases poéticas e reflexivas. Havia muita coisa entalada na minha garganta. Não só da política e da situação atual do país, mas de coisas que eu sentia nas relações humanas e nas situações da vida contemporânea. O primeiro saquinho que eu produzi foi um verso escrito por um ex-namorado dizendo “Saudade é riso triste”. Era tudo que eu queria dizer naquele momento e eu mostrei a ele o bordado. Ele gostou e me incentivou a produzir mais, então comecei a pensar em tudo que eu queria dizer. E assim produzir uma mensagem que chegasse de uma forma mais imediata nos olhos das pessoas, com uma certa urgência.

As fotos dos saquinhos foram postadas quase diariamente no meu perfil do Instagram nesse período de 2020/2021. Até o momento foram produzidos 530 saquinhos de 12x12 cm. As cores diferentes setorizam as diferentes séries de provocações bordadas. Por exemplo: os saquinhos pretos são sempre “porradas”, os vermelhos tratam de afetos, de amores correspondidos ou não. E por aí vai... O estímulo para criação é a própria vida cotidiana do Brasil e tudo pode servir de inspiração, desde uma fala absurda no noticiário a um término de relacionamento.

A produção do “Estojo Carolina”, presente na mostra “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros”, no Instituto Moreira Sales, é uma evolução na minha produção dos saquinhos, que agora alcançaram dimensões maiores. São um conjunto de seis sacos (3 de 20cm x 20 cm e 3 de 30cm x 30 cm) presos por barbantes, onde bordo frases impactantes da escritora favelada, dona de uma obra importante para a cultura brasileira e conhecida mundialmente, tendo seus livros traduzidos em diversas línguas. O meu amor por Carolina Maria de Jesus e pela literatura me inspirou a produzir esse trabalho espontaneamente. Depois de postá-lo nas redes, os curadores da exposição entraram em contato comigo para incluir a obra na mostra, junto de outros artistas, como o próprio Bispo do Rosário, Sonia Gomes, Paulo Nazaré, dentre tantos outros artistas incríveis que admiro.

Eu tenho muitas ideias todos os dias e separar como vai ser produzida cada ideia é muito importante. Eu sempre tento imaginar como cada coisa vai ficar melhor e desse modo direciono. Produzo trabalhos em bastidor de madeira, almofadas, em fotografias, peças de roupa, etc... Tenho buscado cada dia mais avançar em suportes não convencionais. Esse exercício me permite ampliar meu horizonte criativo e nunca me acomodar num “jeito” de fazer. Eu sempre mudo e me permito transformar as coisas. O meu olhar está sempre no novo, no que ainda pode ser feito.


Tolentino Ferraz


42 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
IMG-20220221-WA0004.jpg

Casatempo

arte contemporânea arte brasileira galeria de arte decoração

<!-- Google Tag Manager (noscript) -->
<noscript><iframe src="https://www.googletagmanager.com/ns.html?id=GTM-M456882"
height="0" width="0" style="display:none;visibility:hidden"></iframe></noscript>
<!-- End Google Tag Manager (noscript) -->

<!-- Google Tag Manager -->
<script>(function(w,d,s,l,i){w[l]=w[l]||[];w[l].push({'gtm.start':
new Date().getTime(),event:'gtm.js'});var f=d.getElementsByTagName(s)[0],
j=d.createElement(s),dl=l!='dataLayer'?'&l='+l:'';j.async=true;j.src=
'https://www.googletagmanager.com/gtm.js?id='+i+dl;f.parentNode.insertBefore(j,f);
})(window,document,'script','dataLayer','GTM-M456882');</script>
<!-- End Google Tag Manager -->